Por Ingrid Viana | Psicóloga especialista em altas habilidades | Revive Neuro
Uma mudança de planos, o fim de uma brincadeira, um “não” ou até um ambiente mais barulhento podem desencadear reações emocionais muito intensas em algumas crianças. De repente, aparecem o choro, os gritos, a irritação ou uma dificuldade tão grande para se acalmar que qualquer tentativa de conversar parece piorar a situação.
Para a família, esses episódios podem se tornar uma das partes mais difíceis da rotina. Muitas vezes, os pais não sabem se devem acolher, colocar um limite, conversar ou simplesmente esperar. Além disso, surge uma dúvida frequente: por que algo aparentemente pequeno provoca uma reação tão grande?
Em crianças com autismo ou TDAH, algumas características podem tornar o processo de regulação emocional mais desafiador. No entanto, isso não significa que toda criança com um desses diagnósticos terá crises frequentes, nem que todas as reações intensas acontecem por causa do transtorno.
Por isso, o primeiro passo é entender o que significa regular uma emoção e observar o que acontece antes, durante e depois desses episódios.
O que é regulação emocional?
Regulação emocional é a capacidade de perceber uma emoção, lidar com sua intensidade e recuperar gradualmente um estado em que seja possível pensar, comunicar-se e agir de maneira mais organizada.
Isso não significa deixar de sentir raiva, medo, tristeza ou frustração.
Essas emoções fazem parte do desenvolvimento e continuam presentes ao longo da vida. A diferença está nos recursos que a pessoa consegue utilizar quando elas aparecem.
Uma criança que desenvolve habilidades de regulação emocional pode, por exemplo, aprender progressivamente a reconhecer que está ficando irritada, pedir ajuda, afastar-se de um ambiente muito estimulante ou utilizar alguma estratégia para se reorganizar.
Entretanto, crianças ainda estão construindo esse repertório. Por esse motivo, muitas vezes precisam do apoio dos adultos para atravessar emoções intensas.
Esse processo de ajudar a criança a recuperar estabilidade também faz parte do desenvolvimento da autorregulação.
Por que a regulação emocional pode ser mais difícil no autismo?
Cada criança com autismo apresenta características próprias. Ainda assim, alguns fatores podem contribuir para episódios de desregulação.
Uma criança pode, por exemplo, apresentar maior sensibilidade a sons, luzes, cheiros, texturas ou movimento. Dessa forma, um ambiente que parece comum para outras pessoas pode exigir um esforço muito maior para ela.
Além disso, mudanças inesperadas também podem representar um desafio. Quando uma criança depende mais de previsibilidade para compreender o que acontecerá em seguida, uma alteração repentina na rotina pode gerar insegurança e aumentar a tensão.
A comunicação também merece atenção.
Imagine uma criança que está cansada, sente dor ou não suporta mais o barulho do ambiente, mas ainda não consegue explicar isso com clareza. Nesse caso, o comportamento pode acabar mostrando um desconforto que ela ainda não consegue expressar de outra maneira.
Por isso, situações como estas podem contribuir para a desregulação:
- mudanças inesperadas na rotina;
- ambientes com muitos estímulos;
- dificuldade para comunicar uma necessidade;
- interrupção de uma atividade de grande interesse;
- cansaço ou sono;
- frustração;
- situações sociais difíceis de compreender.
Assim, quando os adultos observam apenas o comportamento final, podem perder uma parte importante do que aconteceu antes.
E no TDAH?
No TDAH, as emoções também podem ganhar intensidade rapidamente em algumas crianças.
Isso pode acontecer porque habilidades como controlar impulsos, esperar antes de reagir, mudar o foco e tolerar frustrações ainda exigem bastante esforço.
Por exemplo, uma criança pode saber que deveria esperar sua vez, mas ter dificuldade para conter a reação quando algo não acontece como esperava. Em outro momento, pode se irritar rapidamente ao precisar interromper uma atividade e começar outra.
Nessas situações, a resposta aparece antes que ela consiga organizar o que sente.
Além disso, dificuldades frequentes na escola, cobranças, esquecimentos e conflitos com outras pessoas também podem aumentar a carga emocional ao longo do dia.
Consequentemente, uma reação que parece começar naquele momento pode ter sido construída por uma sequência de pequenas frustrações anteriores.
Ainda assim, é importante evitar generalizações. Nem toda criança com TDAH apresenta desregulação emocional intensa, e outros fatores também podem contribuir para esse tipo de dificuldade.
Emoção intensa, desregulação e comportamento desafiador são a mesma coisa?
Embora estejam relacionados, esses conceitos não são exatamente iguais.
Uma criança pode sentir uma emoção muito intensa e continuar conseguindo conversar, pedir ajuda ou aceitar alguma orientação. Nesse caso, ela está enfrentando uma emoção forte, mas ainda mantém recursos para lidar com a situação.
Na desregulação, por outro lado, a intensidade aumenta a ponto de prejudicar temporariamente algumas dessas habilidades.
A criança pode ter dificuldade para:
- ouvir explicações;
- responder perguntas;
- negociar;
- seguir instruções;
- organizar o que está sentindo;
- controlar alguns impulsos.
Já o comportamento desafiador corresponde ao que aparece externamente. Pode envolver gritos, choro, recusa, fuga, jogar objetos ou outras respostas.
Entender essa diferença ajuda porque o mesmo comportamento pode ter funções diferentes dependendo da situação.
Em vez de perguntar apenas “como faço isso parar?”, vale também investigar o que aconteceu antes e qual necessidade a criança estava tentando comunicar.
Crise emocional e birra são a mesma coisa?
Nem sempre.
Por fora, duas situações podem parecer muito semelhantes. No entanto, o nível de organização e controle da criança pode mudar bastante.
Em algumas situações, ela ainda consegue observar a reação do adulto, negociar ou modificar rapidamente o comportamento diante de uma alternativa.
Em outras, a sobrecarga chegou a um ponto em que a criança tem dificuldade até para processar o que estão dizendo.
Por isso, tentar classificar todos os episódios apenas como “birra” pode limitar a compreensão.
Uma observação mais útil considera:
- o que aconteceu antes;
- como a criança estava naquele dia;
- quais sinais surgiram primeiro;
- como ela respondeu às tentativas de ajuda;
- quanto tempo demorou para recuperar a estabilidade.
Com o tempo, esses padrões podem revelar informações importantes.
Muitas crises começam antes do momento em que percebemos
Às vezes, uma crise parece surgir de repente. Porém, quando a família começa a observar com mais atenção, percebe sinais que aparecem antes.
Eles variam entre crianças, mas podem incluir:
- aumento da irritabilidade;
- maior inquietação;
- repetição de perguntas;
- dificuldade para responder;
- tentativa de sair do ambiente;
- aumento de movimentos repetitivos;
- cobrir os ouvidos;
- falar mais alto;
- ficar mais silenciosa;
- apresentar maior rigidez diante de pequenas mudanças.
Reconhecer esses sinais permite agir antes que a intensidade aumente.
Se a criança começa a demonstrar desconforto em um ambiente muito cheio, por exemplo, talvez seja possível reduzir os estímulos ou oferecer uma pausa antes que ela chegue ao limite.
Essa antecipação costuma ser mais eficaz do que esperar a crise atingir seu ponto máximo.
Identificar gatilhos ajuda a compreender os episódios
O gatilho nem sempre corresponde a um grande acontecimento.
Às vezes, fatores aparentemente simples se acumulam ao longo do dia:
- fome;
- sono;
- cansaço;
- calor;
- barulho;
- excesso de pessoas;
- mudanças de planos;
- espera;
- dificuldade em uma tarefa;
- dor;
- interrupção de uma atividade.
Por isso, registrar algumas situações pode ajudar.
Uma forma simples consiste em observar três momentos: o que aconteceu antes, o que a criança fez e o que aconteceu depois.
Por exemplo:
A criança chegou cansada da escola. Pouco depois, precisou desligar o videogame para tomar banho. Nesse momento, começou a gritar, chorou e jogou o controle. Após alguns minutos em um ambiente mais tranquilo, conseguiu se reorganizar.
Um episódio isolado não explica tudo. Entretanto, quando padrões semelhantes se repetem, eles podem indicar quais situações exigem maior preparação.
O objetivo não é encontrar um culpado, mas compreender melhor o contexto.
Antecipar mudanças pode ajudar
Para algumas crianças, previsibilidade reduz bastante a tensão.
Por isso, quando uma transição costuma gerar dificuldade, avisar com antecedência pode tornar o processo mais organizado.
Em vez de interromper uma brincadeira de forma repentina, o adulto pode avisar que faltam dez minutos, depois cinco e, próximo do final, lembrar que aquela será a última rodada.
Além disso, dependendo da criança, também podem ajudar:
- rotinas visuais;
- instruções em etapas;
- escolhas limitadas;
- explicações prévias sobre mudanças;
- preparação antes de ambientes mais estimulantes.
No entanto, nenhuma dessas estratégias funciona como uma fórmula universal.
Uma criança pode responder muito bem a avisos verbais, enquanto outra compreende melhor uma sequência visual. Por isso, conhecer o perfil individual faz diferença.
O que fazer quando a criança já está desregulada?
Quando a emoção já atingiu uma intensidade muito alta, a prioridade muda.
Nesse momento, longas explicações, perguntas sucessivas ou tentativas de ensinar uma lição provavelmente terão pouco efeito.
Uma criança muito desregulada pode simplesmente não conseguir processar todas essas informações.
Por isso, o foco inicial deve estar em segurança e redução da sobrecarga.
Reduza a quantidade de informação
Em vez de explicar tudo naquele momento, utilize frases simples e objetivas.
Por exemplo, no lugar de uma longa argumentação sobre por que a família precisa ir embora, pode ser mais útil dizer:
“Eu sei que você ficou chateado. Vamos para um lugar mais tranquilo.”
Depois que a criança recuperar a estabilidade, haverá mais espaço para conversar.
Reduza estímulos quando possível
Se o ambiente estiver muito barulhento, cheio ou exigente, diminuir esses estímulos pode ajudar algumas crianças a se reorganizar.
Isso pode significar:
- sair por alguns minutos de um espaço muito cheio;
- reduzir conversas simultâneas;
- diminuir demandas;
- buscar um ambiente mais tranquilo.
Essa estratégia não serve para “premiar” uma crise. Ela procura reduzir a quantidade de informação que a criança precisa processar enquanto tenta recuperar estabilidade.
Não tente ensinar no auge da crise
Esse ponto é especialmente importante.
Quando a criança está em intensa desregulação, talvez aquele não seja o melhor momento para discutir o que ela deveria ter feito ou exigir que explique seu comportamento.
Primeiro, ela precisa recuperar condições para ouvir, pensar e se comunicar.
Depois, a conversa pode retomar o episódio com muito mais possibilidade de aprendizagem.
Preserve os limites de segurança
Acolher uma emoção não significa permitir comportamentos que coloquem a criança ou outras pessoas em risco.
Quando existe agressividade, autoagressão, fuga ou risco de acidentes, a segurança precisa vir primeiro.
Além disso, episódios recorrentes desse tipo merecem avaliação e orientação profissional individualizada.
O que fazer depois que a crise passa?
Depois que a criança se reorganiza, surge uma oportunidade importante para ajudá-la a compreender o que aconteceu.
Dependendo da idade e da capacidade de comunicação, o adulto pode conversar sobre:
- qual emoção apareceu;
- o que aconteceu antes;
- quais sinais o corpo apresentou;
- o que ajudou;
- o que poderia ajudar em uma situação futura.
Por exemplo:
“Você ficou muito frustrado quando precisou parar o jogo. Na próxima vez, o que pode ajudar quando eu avisar que está terminando?”
Assim, a conversa deixa de ser apenas uma repreensão sobre o passado e passa a construir repertório para situações futuras.
Regulação emocional também se aprende fora das crises
Esperar a próxima crise para ensinar estratégias torna tudo mais difícil.
Por isso, momentos de tranquilidade oferecem boas oportunidades para desenvolver habilidades emocionais.
A criança pode aprender a:
- reconhecer emoções em histórias;
- identificar sinais corporais;
- perceber diferentes intensidades de uma emoção;
- pedir ajuda;
- solicitar uma pausa;
- comunicar desconforto;
- pensar em alternativas diante de uma frustração.
Além disso, essas estratégias precisam fazer sentido para aquela criança.
Não adianta ensinar uma técnica complexa se ela não consegue acessá-la justamente quando mais precisa.
Com prática e apoio, algumas estratégias podem se tornar cada vez mais espontâneas.
Autorregulação não significa fazer tudo sozinho
Antes de conseguir regular emoções de maneira independente, a criança costuma precisar muito da ajuda dos adultos.
Esse processo recebe o nome de corregulação.
Na prática, ela acontece quando o adulto oferece previsibilidade, mantém uma comunicação clara, reduz estímulos quando necessário e ajuda a criança a compreender o que está sentindo.
Com o tempo, algumas dessas estratégias podem fazer parte do repertório da própria criança.
Portanto, a autonomia emocional não surge de uma vez. Ela se desenvolve gradualmente a partir das experiências, relações e habilidades que a criança constrói.
O comportamento também comunica
Nem sempre uma criança consegue dizer:
“Está muito barulhento para mim.”
“Estou cansado.”
“Não entendi essa atividade.”
“Preciso de uma pausa.”
“Essa mudança me deixou ansioso.”
Quando faltam recursos para expressar essas necessidades, o comportamento pode assumir essa função.
Isso não significa que todo comportamento deva ser aceito sem limites. No entanto, compreender o que ele comunica ajuda os adultos a ensinar alternativas mais funcionais.
Uma criança que grita quando precisa interromper uma atividade, por exemplo, pode aprender gradualmente a pedir mais alguns minutos ou solicitar ajuda durante a transição.
Para isso, porém, os adultos precisam identificar qual dificuldade está por trás da reação.
O que pode piorar uma crise?
Quando a criança já está sobrecarregada, algumas atitudes podem adicionar ainda mais estímulos.
Entre elas estão:
- fazer muitas perguntas;
- exigir explicações imediatas;
- falar continuamente;
- aumentar o tom de voz;
- ameaçar repetidamente;
- insistir em contato físico quando a criança não o tolera;
- expô-la diante de outras pessoas;
- interpretar automaticamente a situação como manipulação.
Isso não significa que pais e cuidadores conseguirão agir da maneira ideal em todas as situações.
Crises frequentes também desgastam os adultos. Em alguns momentos, eles podem perder a paciência, sentir frustração ou reagir de uma maneira que depois gostariam de ter evitado.
Por isso, a orientação parental também pode fazer parte do cuidado.
E quando os pais também chegam ao limite?
Conviver com episódios frequentes de desregulação pode afetar toda a família.
Além de administrar a crise naquele momento, os pais precisam lidar com escola, rotina, compromissos e, muitas vezes, com a preocupação de que uma nova situação aconteça.
Nesse contexto, orientação profissional pode ajudar a identificar padrões, organizar estratégias e definir quais limites fazem sentido para aquela família.
Os pais não precisam se transformar em terapeutas.
Entretanto, quando compreendem melhor os gatilhos, os sinais iniciais e as necessidades da criança, conseguem responder com mais recursos e menos tentativa e erro.
Quando procurar ajuda profissional?
Algumas dificuldades emocionais fazem parte do desenvolvimento infantil. No entanto, uma avaliação pode ser importante quando os episódios começam a interferir significativamente na rotina.
Vale buscar orientação quando as crises:
- acontecem com muita frequência;
- apresentam intensidade elevada;
- demoram muito para passar;
- prejudicam a escola;
- dificultam atividades cotidianas;
- afetam significativamente a convivência familiar;
- envolvem agressividade ou autoagressão;
- provocam sofrimento importante;
- aumentam progressivamente.
Também não é preciso esperar que a situação chegue a um extremo.
Se a família já não sabe como lidar com os episódios ou percebe que as estratégias utilizadas não estão funcionando, uma avaliação pode ajudar a compreender melhor o que acontece.
As emoções intensas estão interferindo na rotina da criança ou da família? Uma avaliação individualizada pode ajudar a identificar os fatores envolvidos e orientar estratégias mais adequadas para aquele contexto.
Fale com a equipe da Revive Neuro.
Como a psicoterapia pode ajudar na regulação emocional?
O acompanhamento psicológico pode trabalhar diferentes habilidades conforme a idade, o desenvolvimento e as necessidades da criança.
Entre os objetivos possíveis estão:
- reconhecer e nomear emoções;
- identificar sinais corporais;
- comunicar necessidades;
- desenvolver tolerância à frustração;
- ampliar flexibilidade;
- construir estratégias de regulação;
- desenvolver habilidades sociais;
- orientar pais e responsáveis.
Além disso, quando necessário, o profissional pode conversar com a escola e outros integrantes da equipe que acompanha a criança. Dessa forma, as estratégias não ficam limitadas ao consultório.
O objetivo não consiste em impedir novas emoções ou garantir que nunca mais ocorrerá uma crise. Em vez disso, o acompanhamento procura ampliar os recursos da criança e das pessoas ao seu redor para lidar melhor com essas situações.
Regulação emocional significa aprender a atravessar as emoções
Raiva, medo, tristeza, ansiedade e frustração fazem parte da experiência humana. Portanto, ajudar uma criança a desenvolver regulação emocional não significa ensiná-la a não sentir.
O objetivo é ampliar, gradualmente, sua capacidade de reconhecer o que acontece, comunicar necessidades e utilizar estratégias para atravessar momentos de maior intensidade.
No autismo e no TDAH, esse processo pode exigir uma atenção especial às características individuais da criança, ao ambiente e às situações que costumam provocar sobrecarga.
Além disso, quando pais e profissionais começam a observar o que acontece antes da crise, muitas vezes encontram oportunidades de intervenção que não aparecem quando olham apenas para o comportamento final.
Durante uma desregulação intensa, a prioridade passa a ser recuperar estabilidade e preservar a segurança. Depois, quando a criança volta a conseguir ouvir, comunicar e refletir, surge o momento de ajudá-la a compreender o episódio e construir alternativas para a próxima situação.
Assim, a regulação emocional se desenvolve aos poucos, a partir de experiências, estratégias adequadas e relações que oferecem suporte.
As crises emocionais estão interferindo na rotina, na escola ou na convivência familiar?
Na Revive Neuro, a avaliação busca compreender o desenvolvimento da criança, os contextos em que essas dificuldades aparecem e quais estratégias podem ajudar no dia a dia.
Fale com nossa equipe e agende uma avaliação.
Revive Neuro | Reabilitação Neurológica e Neuromodulação | Itacorubi, Florianópolis, SC










